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Influência Jovem -

Eu sou sun mu

Falar sobre paz e reconciliação entre North e South Korea tornou-se um “crime”.

Falar em paz mundial é um “crime”.

Falar sobre as pessoas que vivem neste mundo, sobre a vida que vivi até agora e a vida que viverei no futuro, tornou-se um “crime”.

Aqui está a música que este “criminoso” queria cantar em voz alta em sua exposição em Beijing.

Eu também tenho um coração dado a mim por meus pais.

Alguém pregou um distintivo vermelho sobre ele.

Fiquei grato e feliz por ser o assunto de alguém.

Tornou-se tudo para mim.

O mundo me transformou em um órfão que não era órfão.

Isso me deu a dor da separação e me deu novos encontros e uma coragem enorme.

O distintivo que alguém tinha pregado no meu calor caiu.

Agora tenho um coração que bate só por mim.

Eu sou Sun Mu.

Foi tudo em que acreditei.

Era tudo que eu sabia.

Foi minha vida inteira.

Agora, acho que entendo um pouco.

Se isso for felicidade, não serei feliz.

Se isso é tudo, não quero viver.

Agora, eu conheço meu próprio eu separado.

Agora, eu clamo para o mundo.

Eu sou Sun Mu.

Depois da separação que eu nunca quis, me joguei no deserto.

Passei todos os dias com medo de ser descoberto e deportado.

Então, passando um ano-novo longe de casa, escrevi uma carta para minha família.

Sem esperança de que possa ser entregue, oro para que seu espírito, pelo menos, chegue até eles.

Eu não queria a dor da separação.

Eu não queria a vida de uma escrava.

Eu não queria morrer.

O sol no céu brilha deslumbrantemente,

mas as lutas de quem vive na escuridão

trazem dor ao meu calor.

Para quem é a ideologia?

Para quem é a política?

Para quem é a guerra?

Deixe o céu ser minha testemunha.

Em Pequim, China, em 2014,

Sun Mu

 

Este é um poema do pintor norte-coreano Sun Mu, que fugiu nos anos 90 para a Coréia do Sul e que mostra em suas telas como é viver num lugar onde a liberdade simplesmente não existe. 

 

É com certeza o artista mais famoso que desertou do país, e mesmo depois de duas décadas ainda sofre as consequências de ter saído do país pelo rio Tumen em direção a China em 1998. Não é à toa que usa um pseudônimo “Sun Mu”(sem fronteiras), para que sua família não corra riscos. Numa entrevista a um site inglês disse que serviu o exército e estudou arte de uma maneira pouco convencional, onde tudo era feito para servir ao grande líder, o que inclui até as folhas das árvores. 

 

Tudo o que aprendeu na academia foi usado de forma reversa. Apesar do sarcasmo e das cores da bandeira coreana fazerem parte da paleta do artista, não é de esperança que nos preenchemos interiormente. As técnicas da pintura de propaganda são a forma ideal que ele encontrou para eternizar em suas telas o regime ditatorial.

 

Conheci seu trabalho ao assistir seu documentário na Netflix há uns quatro anos atrás, quando na ocasião estavam gravando os bastidores da sua exposição na China e aproveitaram para falar um pouco de sua vida. No dia da inauguração apareceram uma dezena de homens que impediram a abertura da mostra, homens que usavam broches da coréia do norte e que pareciam trabalhar em parceria com o governo chinês.

 

Apesar de não gostar muito da ideia de usar a arte como uma ferramenta de ação política, toda regra tem sua exceção, ainda mais numa situação extrema como a do nosso amigo coreano. Na época que assisti não passava pela minha cabeça que seria possível um pintor ter que se sujeitar a viver daquela maneira, mas hoje, com todos os exemplos que temos de autoritarismo das instâncias superiores para quem ‘ousa’ falar o que pensa, tenho a certeza absoluta que terei que voltar a me camuflar, assim como fazia na época de milico.

 

Para quem acha isso um absurdo basta ver o que aconteceu com O Ilustra, que teve sua ilustração de D. Pedro censurada pelo facebook por “incentivar o uso de armas e explosivos”, quando na verdade ele apenas retratou o imperador com o traje oficial, o mesmo que está em todos os livros de história do MEC e dos museus de belas artes. Na mesma época foi lançada uma escultura da cabeça do Bolsonaro degolado, que as pessoas brincavam como se fosse uma bola de futebol, mas nada aconteceu. Por que será que para um lado o peso da ‘lei’ é um e para o pessoal do beautiful people é outro?

 

Sun Mu vivia num local onde quem fosse fora da convencional era taxado de inimigo da pátria e deveria ser eliminado o quanto antes, e o que o pessoal da lacrosfera quer que façam com a gente? Existem diferenças, é claro, aqui existe aquela censura velada se você não parte para a linha das lutas de classes, que ninguém percebe porque estão tão contaminados que não vêem a manipulação comportamental nos indivíduos. Na Coréia, como eles crescem num verdadeiro regime de doutrinação, é mais difícil de acontecer uma deserção como a de Sun Mu. 

 

É aí que mora o perigo, essa falsa sensação de acolhimento e livre arbítrio foi o que me seduziu por muito tempo e que levou meus amigos da faculdade a se comportarem como verdadeiros bonecos de ventríloquo, e pelo andar da carruagem, ainda vai demorar muito tempo para que possamos viver num ambiente onde pelo menos seja tolerado quem não quer ser igual aos lacradores. 

 

Quem quiser ver um pouco mais sobre a obra de Sun Mu acesse o site  sunmuart.com ou procure pelo seu documentário Eu sou Sun Mu nas plataformas de streaming.

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